T'es tu
perdu
souvent?
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
05:12

Arrastei a pesada porta de madeira, para que assim a luz solar adentrasse o velho cômodo abandonado, o iluminando enquanto tive a chance de ultrapassar a poeira e me encontrar dentro de um grande jardim. Folhas velhas e novas caiam por entre o capim alto, as paredes da casa enchiam-se de plantas trepadeiras, pude perceber que o dono havia partido já fazia muito tempo. Senti a ponta de meu pé bater em algum tipo de pedra, olhando melhor, pude ver um banco tomado pela vegetação, passei minhas mãos pelo assento, retirando a sujeira, logo me sentando. Parado ali, pude observar calmamente um ambiente que por muito tempo deixei trancado, abrangia um grande área, toda tomada pelo descuido humano. Meu descuido humano. De repente, da janela mais alta da edificação próxima, lançou-se uma luz de um projetor sobre mim, envolvendo meu corpo em milagrosas imagens que pareciam combinar com as estrelas do céu. Passara videos, fotografias de passados que até pouco pareciam distantes, de pessoas as quais já não mais conhecia, o que me incluía. Foi então que tive a grande revelação de me sentir parte daquele lugar, tão abandonado, tão descuidado, tão preso em velhas ervas daninhas... Surpreso e inconformado levantei-me e assim fui a procura de qualquer objeto que me ajudasse a limpar o local. Ao encontrar, passei a maior parte da noite a arrancar espinhos e daninhas, deixando novas plantas, estátuas e bancos respirarem. Mas que bonito aquilo era ao amanhecer! O sol quente e confortável invadia cada canto que um dia já fora escuro. Visto que minha tarefa já estava feita, me retirei do jardim prometendo sempre retornar para que se mantivesse no estado atual. Percebi até que uma bela rosa me agradecia mas, imaginei estar tomado de delírio pela noite sem dormir. Ultrapassei a casa, e então cheguei à rua, voltei aos meus passos apressados mas em divertidos tons de sapateado. De forma alguma olhei para trás, soube que uma vez arrumado, o jardim traria sua bela alegria de volta, assim também meu próprio eu.